Esqueçam a loucura de agosto, quando alugar um carro custa uma fortuna e é preciso chegar às sete da manhã para arranjar lugar no parque de estacionamento das praias. Quando visitei Menorca em meados de outubro, encontrei uma ilha que finalmente respirava. As manhãs começam com uma aragem fresca, mas à tarde ainda se anda de t-shirt. Não é um paraíso isolado, é apenas a realidade das Baleares na época baixa: os preços descem, os empregados de mesa têm tempo para conversar e o território volta a pertencer aos menorquinos.
Pedras antigas sem transpirar em bica
Explorar a Menorca Talayótica no pino do verão é sinónimo de derreter ao sol. Entre setembro e novembro, a conversa é outra. O bilhete para a Naveta des Tudons custa uns simbólicos 2€ (levem moedas, porque o terminal de multibanco nem sempre tem rede) e, nesta altura do ano, é bem provável que tenham o monumento só para vocês.
Em sítios como a Torre d’en Galmés ou a vila de Talatí de Dalt, o calor dá tréguas e já se consegue explorar os complexos pré-históricos a passo normal. A luz ao fim da tarde no outono corta as rochas calcárias e dá um tom dourado incrível às ruínas. É também agora que começam a surgir as visitas guiadas mais técnicas, mas fica o aviso: perguntem sempre nos postos de turismo, porque os horários de outono costumam mudar sem grande atualização prévia na internet.
O passo lento de Maó e Ciutadella
Em Ciutadella, caminhar sob os arcos do Carrer de Ses Voltes ganha outro encanto quando não temos de nos desviar de dezenas de turistas com gelados a derreter. A arquitetura da ilha, com a sua estranha e fascinante mistura de herança espanhola, janelas de guilhotina britânicas e detalhes franceses, nota-se muito melhor quando podemos simplesmente parar a meio da rua para olhar para cima.
Em Maó, o Museu de Menorca (a entrada ronda os 3€) é o escape perfeito para aquelas tardes em que o vento aperta. No entanto, é preciso ter atenção à transição da época. Muitos cafés de bairro e pequenas galerias aproveitam o final de outubro para tirar férias. Se tiverem um restaurante específico em mente nas ruelas do centro, liguem antes para confirmar se a porta não está fechada com o clássico letreiro de “fim de temporada”.
Caldereta, cogumelos e o vento norte
O outono pede pratos de tacho. A famosa caldereta de langosta continua nas ementas, embora exija preparação da carteira — contem largar entre 60€ a 80€ por pessoa nos restaurantes de Fornells. Para algo mais em conta e sazonal, procurem tascas que sirvam pratos com esclata-sangs (os cogumelos silvestres típicos da região) ou peçam uma tábua de queijos curados de Mahón acompanhada pelos vinhos da nova colheita. O Mercat des Peix em Maó continua a pulsar de vida de manhã, mas as bancas começam a arrumar as caixas mais cedo à tarde.
À noite, a reduzida poluição luminosa faz valer a certificação Starlight da ilha. Fora das vilas, a escuridão é densa e absoluta. Caso alinhem numa sessão de observação astronómica com telescópio (há várias empresas locais a cobrar cerca de 25€ por noite), não confiem no termómetro diurno. Levem um casaco grosso. O vento norte, a famosa Tramuntana, não perdoa mal o sol se põe.
A areia livre e a lama do Camí de Cavalls
A água do Mediterrâneo retém o calor do verão até bastante tarde. Em outubro, ainda se toma banho confortavelmente em praias como Cala Turqueta ou Macarella. A grande diferença face a julho é logística: os parques de estacionamento estão abertos, são gratuitos e têm lugares de sobra a qualquer hora do dia. A longa faixa de areia de Son Bou, habitualmente apinhada, fica perfeita para caminhar à beira-mar com o casaco ao ombro.
Para quem prefere calçado de montanha ou BTT, o Camí de Cavalls — o trilho histórico de 185 quilómetros que dá a volta à ilha — está na sua melhor fase. As primeiras chuvas de outono acabam com a poeira e trazem o verde de volta à vegetação costeira. Mas há um detalhe que os folhetos turísticos ignoram: algumas secções a norte e no interior ficam bastante lamacentas depois de chover, por isso deixem os ténis brancos no hotel e calcem umas botas a sério.
Ir a Menorca no outono implica aceitar que o ferry pode atrasar devido à ondulação e que algumas esplanadas já fecharam as portas. A recompensa é uma ilha com estradas vazias, comida servida sem pressa e um silêncio que, finalmente, a deixa descansar.