Menorca
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A Ilha

Ilha de Menorca, vista aérea

Menorca: Estradas de Terra, Vento Norte e a Verdadeira Reserva da Biosfera

Em 1993, a UNESCO declarou Menorca como Reserva da Biosfera. Na prática, para quem aterra no modesto aeroporto de Mahón num dia de setembro, este título traduz-se em duas realidades imediatas: uma ausência feliz de resorts de betão com vinte andares a dominar a costa e uma rede interminável de estradas estreitas, ladeadas por rústicos muros de pedra seca (paret seca), onde o carro alugado vai invariavelmente roçar em alguns arbustos.

Menorca tem 702 quilómetros quadrados, mas a velocidade média raramente passa dos 60 km/h. É uma ilha que nos obriga a travar a fundo, tanto no pedal como na cabeça.

A Bipolaridade do Litoral: O Norte de Argila e o Sul de Postal

A geografia de Menorca dita as regras do jogo. A ilha está dramaticamente dividida a meio, e a experiência de quem a visita depende inteiramente da direção do vento. Quando a Tramuntana sopra forte, foge-se para o sul; quando o sul sufoca, o norte é o refúgio.

No norte, a paisagem não tenta ser dócil. As falésias de argila vermelha e xisto escuro contrastam com um mar que balança entre o azul-marinho e o verde-escuro. O fundo é rochoso, o que atrai cardumes densos e corvos-marinhos, sendo de longe a melhor zona da ilha para pôr os óculos de mergulho.

  • Cala Pregonda e Binimel·là: A rotina começa sempre no parque de estacionamento de pó batido de Binimel·là. O quiosque de apoio costuma cobrar uns valentes 3€ por uma garrafa de água pequena, por isso traz mantimentos do supermercado. Daqui, são 25 minutos a pé por um trilho árido, sem uma única sombra, até Pregonda. O esforço compensa quando se chega àquela areia avermelhada, protegida da rebentação por ilhéus rochosos.
  • Cala Cavallería: Tem um acesso muito mais fácil e um areal extenso. Durante anos, os guias turísticos recomendaram um ritual que consistia em raspar a argila das arribas, misturá-la com água do mar e barrar o corpo para um banho de lama. Hoje, a realidade é outra: a prática acelerou a erosão da falésia de forma drástica. Vais ver dezenas de placas a proibir os banhos de lama. Respeita-as e guarda a pele macia para outro dia.
  • Cala Pilar: É preciso caminhar uns bons 40 minutos através de um bosque e de dunas expostas ao vento para lá chegar. O telemóvel perde a rede a meio do caminho. A areia dourada e a total ausência de construções humanas fazem desta praia um dos últimos redutos verdadeiramente selvagens do Mediterrâneo.

O sul é o paraíso das águas turquesas que saturam as redes sociais. Mas a beleza tem um preço, e em Menorca esse preço paga-se em logística.

  • Macarella e Macarelleta: A água tem mesmo aquela transparência hipnótica, não é truque de edição. No entanto, há um detalhe prático que convém saber: entre junho e outubro, é totalmente proibido descer de carro até Macarella. Vais ter de apanhar o autocarro amarelo a partir da praça dos Pinheiros em Ciutadella (custa cerca de 3,20€ por trajeto) e tens de reservar o bilhete online com dias de antecedência. Chegando lá, a curta caminhada pelo pinhal até à minúscula Macarelleta demora 15 minutos e exige calçado decente — chinelos de dedo naquelas pedras polidas são um convite a uma ida ao centro de saúde.
  • Cala Galdana: É a exceção à regra da natureza intocada. Tem hotéis em cima da baía, restaurantes e toldos. O multibanco Euronet perto do supermercado cobra quase 3€ de taxa fixa de levantamento, pelo que é melhor trazer euros da cidade. Apesar da urbanização, a baía em forma de meia-lua é lindíssima e serve de ponto de partida perfeito (através do trilho Camí de Cavalls) para chegar a pé às praias não vigiadas.
  • Mitjana, Turqueta e Trebalúger: Esquece a ideia de chegar às 11 da manhã num dia de agosto. O parque de estacionamento da Turqueta chega a fechar às 8h30 porque atinge a lotação máxima. Trebalúger, por outro lado, exige uma marcha de 40 minutos a subir e descer rochas a partir de Mitjana, o que, felizmente, afasta três quartos da multidão.

O Interior: Gin, Pedras e Lagosta

O interior rural, pontuado pelas quintas leiteiras tradicionais (llocs), cheira a queijo curado e a ervas secas. É aqui que se percebe a herança britânica do século XVIII, mais evidente no copo: o gin artesanal Xoriguer. Na festa de Sant Joan em Ciutadella, no final de junho, consome-se aos litros sob a forma de pomada (gin com limonada fresca), servido em copos de plástico nas ruas apinhadas de cavalos e locais eufóricos.

A gastronomia menorquina é honesta, mas sabe cobrar-se. A famosa caldereta de lagosta na vila piscatória de Fornells é divinal, mas convém olhar para o menu antes de sentar; em restaurantes clássicos como o Es Cranc, a conta aproxima-se facilmente dos 80€ por pessoa.

Pelo caminho, surgem os monumentos megalíticos da cultura talayótica. Por cerca de 2€, podes entrar no recinto da Naveta d’Es Tudons, uma construção funerária com mais de três mil anos, erguida no meio de um campo de ovelhas, sem argamassa, apenas com pedras encaixadas na perfeição.

Menorca exige planeamento. Exige paciência com os autocarros, tolerância ao pó que se acumula nos ténis e respeito pelas regras da Biosfera. Mas quando dás por ti sentado numa rocha plana ao fim da tarde, com o sal a secar na pele e o vento a finalmente abrandar, percebes exatamente por que razão os menorquinos lutam todos os dias para que a sua ilha continue assim, imperfeita nos acessos e absolutamente irretocável na essência.