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Primavera em Menorca: O Despertar da Ilha Dourada

Aterrar em Menorca em meados de abril tem tanto de libertador como de imprevisível. Esqueça a imagem estática dos postais de verão; a primavera aqui é ditada pela Tramuntana, o vento norte que varre a ilha e limpa os céus até ficarem de um azul elétrico. Longe da histeria de agosto, é nesta altura que a ilha funciona para quem lá vive. Os cafés começam a reabrir as esplanadas, as estradas estão desimpedidas, e percebemos finalmente a verdadeira escala deste pedaço de terra nas Baleares.

Se alugar um carro e conduzir pela Me-1, a estrada principal que corta a ilha de uma ponta à outra, vai reparar que os campos apresentam um tom de verde que desaparece por completo em julho. Há manchas vermelhas de papoilas por todo o lado e o cheiro a alecrim selvagem entra pelas janelas se as trouxer abertas. É a altura certa para enfrentar o Camí de Cavalls. Este trilho histórico de 185 quilómetros dá a volta à costa, mas não tente fazer tudo a menos que tenha semanas de sobra. Recomendo o troço de Cala Galdana até Cala Macarella. Na primavera, não há barcos a despejar turistas na baía, mas prepare-se para a realidade do terreno: o piso é traiçoeiro, cheio de pedras calcárias soltas que dão cabo de uns ténis baratos em menos de uma hora. Leve calçado a sério e água, porque os quiosques de praia continuam com tábuas nas janelas.

Em Mahón (ou Maó), a capital, a vida cultural arranca muito antes do calor apertar. O Teatro Principal, que se orgulha de ser a casa de ópera mais antiga de Espanha, tem uma programação de primavera bastante sólida. Entre abril e maio, os concertos do Festival Internacional de Jazz de Menorca ocupam salas e bares um pouco por toda a ilha. Um aviso a quem conduz: estacionar perto do centro histórico de Mahón numa noite de espetáculo é um teste à paciência, e o multibanco amarelo junto ao porto costuma cobrar uma taxa absurda de 3,50€ por levantamento de cartão estrangeiro. A tática é levantar dinheiro no centro, perto da Plaça d’Espanya, e descer a pé.

Se a sua viagem calhar na altura da Páscoa, vai inevitavelmente esbarrar com as procissões da Semana Santa. É um assunto sério e profundamente local. Mais interessante ainda é o que acontece nas padarias. É a época oficial das formatjades. Vai ver estas empadas redondas em todas as montras. A versão tradicional leva carne de borrego, mas as de queijo são excelentes. Custam à volta de 3 a 4 euros nas pastelarias de bairro, como o Forn de Dalt, em Ciutadella. Compre duas, enfie-as na mochila e coma-as sentado no paredão do porto.

A comida nesta altura do ano segue estritamente o que a terra dá. Nos mercados locais, aparecem os molhos de espargos silvestres fininhos, e o peixe fresco domina os menus de ardósia dos restaurantes. E, claro, há o queijo Mahón-Menorca DOP. Nas bancas do mercado, peça para provar as diferentes curas. Um pedaço generoso de queijo curado, com aquela casca alaranjada característica e sabor ligeiramente picante, não lhe deve custar mais de 7 ou 8 euros. É o melhor investimento que pode fazer para as caminhadas.

Ficar alojado na primavera obriga a algumas escolhas táticas. Os grandes hotéis de costa costumam estar a meio gás ou a fazer obras de manutenção de última hora. A alternativa lógica são os agroturismos — antigas quintas convertidas em hotéis rurais no interior da ilha. As noites de abril ainda são frias, e essas velhas paredes de pedra absorvem a humidade, por isso certifique-se de que o quarto tem o aquecimento ligado antes de desfazer as malas. Tirando esse detalhe prático, o silêncio é absoluto. Acordar numa destas propriedades, rodeado por muros de pedra seca, com o cheiro a terra húmida e o som de uma ovelha ao longe, é perceber como Menorca funciona de verdade.