Esqueçam as praias apinhadas de agosto. Quando aterrei em Menorca em pleno final de outubro, o vento norte — a famosa Tramuntana — já obrigava a fechar o casaco ao fim da tarde. É precisamente nesta altura, quando as hordas de turistas desaparecem e a ilha volta a respirar, que arranca o Menorca Doc Fest. Em vez de lutas por espaço na areia, encontrei ecrãs montados em edifícios históricos, num festival de documentário e fotografia que mostra a realidade sem filtros.
O festival recusa-se a ficar preso numa única sala escura. As projeções e exposições andam à solta pela ilha. Num dia, dei por mim a ver um documentário sobre sustentabilidade piscatória projetado nas velhas paredes de uma fortaleza, com o som do vento a competir com as colunas. No dia seguinte, analisava uma exposição de fotografia documental nos corredores de pedra do Claustre del Carme, bem no centro de Maó. Mas deixo já um aviso prático: movimentar-se entre estes locais no outono obriga a alugar carro. Os horários dos autocarros de verão já não existem e depender dos transportes públicos nesta altura vai deixá-lo irremediavelmente apeado numa paragem qualquer em Es Mercadal, à espera de um autocarro que só passa daqui a três horas.
Os filmes fogem claramente ao circuito comercial. A seleção mistura produções espanholas e internacionais, com bilhetes que raramente passam dos 4€ ou 5€ por sessão — um alívio refrescante para a carteira. E a melhor parte destas sessões fora de época é a proximidade. O ambiente é tão informal que não é invulgar acabar a debater o filme com o próprio realizador no passeio, enquanto procuramos o único café ainda aberto nas redondezas para beber um cortado. Paralelamente, as galerias locais enchem-se de exposições fotográficas que tocam nas feridas da atualidade, desde a gentrificação acelerada das Baleares à perda de identidade local.
Mas o Menorca Doc Fest suja as mãos para lá das exibições. O evento tem um braço pedagógico forte, oferecendo workshops onde profissionais do setor ensinam técnicas de captação de som e luz, a uma fração do preço que se pagaria numa escola de cinema em Lisboa ou Madrid. Cruzar-me com dezenas de miúdos das escolas locais, que ali vêm para sessões matinais exclusivas, mostra que o festival não aterrou de paraquedas para encher uma agenda cultural. Tenta, de facto, criar um público crítico e semear o gosto pelo cinema na juventude menorquina.
Se decidir vir, aponte para o final de outubro ou início de novembro. Confirme as datas exatas e os locais no site oficial do Menorca Doc Fest antes de marcar os voos, porque o calendário varia ligeiramente todos os anos. Compre os bilhetes online assim que saírem; as salas mais pequenas esgotam mais rápido do que se imagina. E um último conselho de quem já passou por isso: traga dinheiro vivo na carteira para o café ou para comprar uma revista do festival. As caixas multibanco nas vilas mais pequenas, como Fornells, têm o hábito irritante de estar fora de serviço no outono, ou então pertencem àquela rede Euronet que lhe vai cobrar taxas abusivas só para levantar dez euros. É uma Menorca mais fria e mais crua, sim, mas infinitamente mais autêntica.