Em agosto, Menorca é um mar de toalhas sobrepostas e carros de aluguer a disputar um lugar à sombra. Mas se aterrarem no aeroporto de Mahón num final de tarde de janeiro, a história é outra. De dezembro a março, a ilha esvazia-se. A maioria dos restaurantes de praia tranca as portas, o autocarro para as enseadas do sul desaparece dos horários e Menorca regressa aos menorquinos. Não venham à procura de espreguiçadeiras; venham à procura de cafés de bairro onde um galão custa 1,50€ e as conversas ao balcão se fazem num menorquim cerrado.
A primeira coisa com que terão de lidar é a tramontana. Este vento de norte não é uma brisa de fim de tarde — em fevereiro, é capaz de vos arrancar a porta do carro das mãos se não a segurarem com força. Já dei por mim a tentar manter-me de pé nas falésias da costa norte enquanto as ondas explodiam contra a rocha negra. O vento deixa o para-brisas coberto de sal e obriga a usar um corta-vento a sério, mas há algo de profundamente viciante neste ar gelado. Até porque nos empurra, sem qualquer culpa, para o interior das tabernas com o aquecimento no máximo.
As manhãs de inverno são a única altura do ano em que se pode explorar o património militar da ilha sem derreter ao sol. A Fortaleza de La Mola, em Mahón, é gigantesca — a entrada custa à volta de 8€ e vão andar quilómetros a pé. Do outro lado da baía, em Es Castell, têm o Castell de Sant Felip. A caminhar por Mahón, vão notar as janelas de guilhotina a bater com as rajadas de vento, uma herança britânica teimosa, tal como a produção de gin. Desçam até ao porto e entrem na destilaria Xoriguer. Está aberta o ano todo e provar um cálice de gin às onze da manhã, numa terça-feira chuvosa, faz todo o sentido.
Longe do mar, os campos estão surpreendentemente verdes. O inverno é a altura certa para conduzir pelas estradas secundárias até uma queijaria tradicional (as llocs). Em propriedades rurais perto de Alaior, podem ver como ainda se faz o formatge de Maó. O cheiro nas salas de cura é intenso e penetrante. Por uns 15€ a 18€ o quilo, trazem uma roda de queijo curado. Um conselho: peçam para embalar em vácuo, ou a vossa bagagem vai cheirar a lacticínios até chegarem a casa. As poucas adegas com a denominação Vi de la Terra Illa de Menorca também recebem visitantes, e nesta altura do ano é frequente ser o próprio enólogo a encher-vos o copo.
Esqueçam as saladas frescas. O inverno aqui pede calorias e os restaurantes nas aldeias do interior, como Es Mercadal, sabem disso. É a época do brou menorquí, um cozido denso de carne e legumes que vos vai manter quentes durante o resto do dia, normalmente servido como menu de almoço por uns 14€. Para rematar a refeição, pede-se um gin local com pellofa — uma mistura simples de gin com limonada gaseificada e casca de limão — bebido no balcão de madeira enquanto a televisão transmite as notícias da ilha.
Se no verão o Camí de Cavalls (o trilho milenar que contorna a costa) é um forno implacável, agora é o terreno perfeito para caminhar ou andar de BTT. Tragam calçado impermeável, pois os troços perto dos barrancos ficam enlameados depois das chuvas. Uma das rotas de carro mais recompensadoras leva-nos aos faróis do norte. O farol de Favàritx, erguido no meio de rocha de ardósia que parece saída de outro planeta, e o de Cavalleria, no extremo da ilha, enfrentam o mar com uma crueza fotogénica. Sem as dezenas de carros de turismo em sentido contrário, conduzir por estas estradas estreitas é finalmente um prazer.
Quem vier a meio de janeiro apanha a Diada de Sant Antoni, a 17 de janeiro. É o feriado do padroeiro e as ruas de Ciutadella e outras vilas enchem-se de fumo de lareiras e carne assada na rua. Vão ver cavalos bem escovados a desfilar no meio da multidão, gigantones e caparrots (cabeçudos) a ziguezaguear pelo centro histórico. Se ficarem nas filas da frente, é bem provável que levem um encontrão de um cavalo assustado — faz parte da festa. Pouco tempo depois, chega o Carnaval, menos plástico que noutros destinos e com um caos muito local.
Menorca no inverno não desliga, apenas reduz a marcha. Passamos a ter tempo para encontrar lugar para estacionar, para ouvir as histórias de quem nos serve o almoço e para sentir o peso geográfico do Mediterrâneo. Quando derem por vocês a embarcar no voo de regresso num daqueles pequenos aviões a hélices que fazem a ponte para o continente nesta época do ano, vão perceber que conheceram a verdadeira ilha.