Chegar a Menorca a meio de agosto pode ser um choque logístico. O pequeno aeroporto de Maó fervilha e as estradas enchem-se de carros de aluguer. Não há volta a dar: de junho a setembro, a ilha acorda do seu letargo de inverno e transforma-se. Mas sobreviver ao verão menorquino — e aproveitá-lo a sério — exige saber ao que se vai, muito para além das fotografias perfeitas nas redes sociais.
As praias da costa sul são as que aparecem nos postais, com a sua areia fina e água turquesa cercada de pinheiros. Calas como a Macarella ou a Turqueta são espetaculares. O problema? No pico do verão, os parques de estacionamento esgotam por volta das 8h00 da manhã. Se não quiser madrugar nas férias, a solução é apanhar o autocarro que parte de Ciutadella (custa cerca de 5€ e exige reserva prévia online).
Quando o sul rebenta pelas costuras, a costa norte é o meu refúgio de eleição. Em praias como Cala Pregonda ou Cavalleria, a areia é argilosa, avermelhada e o mar tem um azul denso e escuro. O vento de Tramuntana bate com força nesta zona, o que espanta metade dos turistas. Leve sempre água, comida e um chapéu de sol resistente; não há chiringuitos providenciais nem sombras fáceis nestas paragens mais agrestes.
Longe da areia, o verão na ilha tem uma banda sonora muito própria: o som dos cascos dos cavalos e o tilintar dos copos de plástico. Tudo começa com as Festas de Sant Joan, em Ciutadella, nos dias 23 e 24 de junho. É caótico. O centro histórico cheira a suor, cavalos e gin. O ponto alto é o jaleo, quando a multidão na praça se aglomera para erguer literalmente os cavalos que empinam sobre as duas patas traseiras. Há pó por todo o lado e o risco de levar um encontrão é real, mas a energia é absolutamente contagiante. A partir daí, praticamente todas as vilas têm o seu fim de semana de jaleo, numa rota de festa contínua que termina em setembro com as Festas de la Mare de Déu de Gràcia, na capital, Maó.
Em relação à comida, vamos ser práticos. Comece o dia na padaria mais próxima com uma ensaimada ou uma coca bamba. Um pão rústico com sobrasada também resolve qualquer pequeno-almoço antes de seguir para a praia. Ao final da tarde, toda a gente tem um copo de pomada na mão — uma mistura perigosa, mas incrivelmente refrescante, de Gin Xoriguer local com limonada (normalmente Kas de limão).
Para o jantar, convém gerir expectativas e orçamentos. Se quiser provar a famosa caldereta de llagosta (caldeirada de lagosta) nas vilas piscatórias como Fornells, prepare a carteira. Um tacho para duas pessoas facilmente ultrapassa os 140€ e é preciso reservar mesa com dias de antecedência. Se o orçamento for mais apertado, fuja para as ruas secundárias e peça uma tábua de autêntico queijo Mahón curado (o de casca alaranjada) e uns olíaigos — uma sopa fria tradicional de tomate e pimentos, muitas vezes servida com figos no final do verão. Custam uma fração do preço e sabem a pura Menorca.
Um último conselho: evite a todo o custo as caixas multibanco da rede Euronet espalhadas pelo centro de Ciutadella, que lhe cobram uns absurdos 3,95€ de taxa de levantamento. E se tenciona alugar carro, trate disso meses antes, ou arrisca-se a pagar mais de 100€ por dia por um utilitário com faróis arranhados. A ilha no verão exige alguma paciência logística. Contudo, quando estivermos sentados à noite no porto de Cales Fonts, com o vento quente na cara e um copo de gin local na mão, percebemos imediatamente porque é que toda a gente insiste em voltar.